Ao deixar o Bar?o Vermelho, em 2017, Frejat se colocou no campo contrário ao que um dia esteve quando Cazuza resolveu sair do grupo, em 1985, para seguir sua vida, sua agenda e seus flertes com a música brasileira sem ter mais de submetê-los ao consenso. Frejat saiu oficialmente em paz com os outros integrantes, alegando incompatibilidade de datas e expectativas resolvidas com civilidade, e passou a degustar as ideias de um primeiro álbum solo. Depois do próprio Bar?o Vermelho lan?ar o primeiro disco sem Frejat, com Rodrigo Suricato fazendo a voz principal, Frejat lan?a seu primeiro álbum sem a banda que fundou, em 1981, há quase 40 anos.

Frejat, em show?de 2013 © WILTON JUNIOR/ESTAD?O Frejat, em show?de 2013

As duas manobras da vida em torno do Bar?o, a primeira o deixando no lugar de um personagem t?o forte quanto Cazuza e a segunda o fazendo sair sem levar a marca que fortalece por quatro décadas, acabaram por colocar em teste, mesmo em momentos diferentes, atributos que, se n?o fossem sólidos, já o teriam derretido. Muitos grupos se foram assim, quando seus líderes morreram. Só para ficar nos anos 80, n?o houve Legi?o Urbana sem Renato Russo e n?o haveria Paralamas sem Herbert Vianna, mas houve Bar?o sem Cazuza e Frejat conserva-se bem sem Bar?o.

Frejat n?o muda a história dos outros com Ao Redor do Precipício, o álbum que lan?a agora com o quarteto de produtores Kassin, Humberto Barros, Maurício Neg?o e ele mesmo, mas avan?a na própria, aos 58 anos, com uma solidez de caráter artístico que n?o tem sido comum nos precipícios a seu redor. Apesar de tantos nomes dirigindo uma sonoridade mais ao passado das ideias que ainda funcionam ou ao pseudo futuro de um som que talvez nem se torne futuro, nada ecoa mais do que um jeito de pensar can??o que, algo diz a quem escuta, só pode ter saído de Frejat.

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Quando se ouve Pergunta Urgente, que foi trabalhada como um dos singles antes do lan?amento, algo faz pensar que se trata de uma autoria de Frejat. Mas n?o. Quem criou a música foi o monge budista Luis Nenung, que a enviou para o cantor em 2015. Como nada acontecia, o próprio Nenung a lan?ou em 2019, em seu álbum Incendeia a Tua Aldeia. “Essa quase fica de fora”, conta Frejat. “Ela foi mandada por ele, que tinha uma banda que gravava pelo selo do Dado Villa-Lobos. Eu havia me esquecido completamente, e acabei me lembrando quando estava reunindo material para o álbum.” E é com tudo o que ela n?o tem, nada que a queira tirar dos lugares quentes e comuns das grandes can??es, o detalhe que a torna poderosa.

Pergunta Urgente abre com viol?o, piano e a voz de Frejat. “Uma pergunta é urgente / A vida segue se eu desviar / Uma resposta depressa / Só que talvez eu n?o queira escutar / Eu fa?o tanto por tantos / Eu dou o que nem poderia te dar / Eu tenho medo seguro / Guardo aqui dentro pra n?o te assustar.” é simples, instantanea, com um slide guitar matador e no tempo certo de uma boa balada, sedutora até nos deslizes de uma ou outra nota que n?o se alcan?a. Uma balada como tantas outras que ele já fez quando empunhou viol?es.

é preciso viver alguns anos para se chegar à fé que faz artistas acreditarem na for?a de algumas can??es de três ou quatro acordes. Frejat fala sobre isso. “Simplicidade é a grande busca. é muito mais difícil e desafiador só deixar aquilo de que a can??o precisa.” Ele, acusado no passado de ser a parte roqueira na divis?o que teria feito Cazuza sair do grupo por escolher a música brasileira, diz o que inspira a ideia da simplicidade. “Jo?o Gilberto e Miles Davis sempre fizeram isso. Jo?o nunca teve excessos. Está precisando disso? N?o? Ent?o sai.”

Mas a can??o é uma das faces do álbum. E Você Diz é um maracatu de acento trocado cheio de for?a, rock and roll, uma parceria assinada por Frejat, Luiz Melodia (morto em agosto de 2017) e Jards Macalé, com vozes sobrepostas das flautas de Carlos Malta. Planetas Distantes, feita com Dulce Quental, tem uma m?o mais solta de Kassin, mais movimentada e eletr?nica. Amar um Pouco Mais, uma das quatro parcerias com Leoni, parece uma aposta pessoal de Frejat dentre suas preferidas e algo que representa também uma outra face de sua composi??o, com um direcionamento pop seguindo por um ciclo maior. Um belo hit de rádio se isso ainda existisse.

Alice Caymmi canta A Sua Dor é Minha, feita com George Israel e Mauro Santa, guardada desde 2002 ou 2003. Frejat só toca guitarra e um arranjo de cordas tem a assinatura luxuosa de Arthur Verocai. E Tudo o Que Eu Consegui, com Mauro Santa Cecília e Antonio Cícero, quase vira disco music e preserva os arranjos criados por um homem que merecia ver esse álbum pronto, Serginho Trombone. Serginho, um dos trombones mais generosos à música brasileira, atravessando auges das carreiras de Jorge Ben, Gilberto Gil, Rita Lee, Sidney Magal, Luiz Melodia, Alcione, Ed Motta, Ant?nio Adolfo, Lenine, Sandra de Sá e Lincoln Olivetti, que considerou seu maior professor, morreu em abril, meses depois de ter um álbum solo produzido e realizado pela insistência e o amor de Frejat.

O tempo traz dilemas e, na música, n?o é diferente. Afinal, seguir os sinais das transforma??es ou a história que se escreveu? “Eu n?o quis ficar preso ao passado, mas ao mesmo tempo n?o quis também soar moderninho. N?o soar retr?, mas também n?o soar como os mais novos, como algo for?ado”, diz Frejat. N?o deixa de ser uma racionaliza??o, uma preocupa??o que ele n?o teria se tivesse 25 anos. E talvez seja aí, quando soa como se tivesse 25, sem preocupa??es com o passado ou com o futuro, que ele consiga ser o melhor dos Frejat.

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